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O psiquiatra mandou escrever uma carta para mim mesmo. Eu vou é arrancar umas páginas do meu diário e esfregar na cara dele. Aquelas sujas com o esperma do meu tio de quando eu tinha sete anos de idade. Será que ele vai gostar? É fácil pra caramba sentar naquela poltrona de couro reclinável com estofado mega macio que deve ter custado dois mil reais e ficar pagando lição pros outros. O filho da puta passa cinco anos numa faculdade, arranca 400 reais por semana da minha mãe (que já tá com as contas no vermelho) e o melhor que ele faz é isso? Propor escrever cartinha? Ah, mas como eu adoro passar os cinquenta minutos em silêncio. O cara aguenta uns dez, quinze minutos. Mas só. Nunca passou disso. Depois fica pedindo, quase implorando, pra eu contar alguma coisa. E eu só olhando pro relógio e aproveitando cada segundo. Sabe como eu consigo? Eu engulo raiva. É isso. Raiva é meu alimento. Ela me dá força pra continuar estático. Eu vou juntando aquela bola de rancor dentro do estômago igual gato junta bola de pelo. Parece que um dia vai brotar câncer desse troço. E tomara que brote mesmo. Saio do consultório satisfeito.

Ontem Marcelo veio aqui em casa, mas eu não atendi. Conheço Marcelo desde que tenho oito anos de idade. Mas tem horas que você não quer conversar com ninguém. Ele tava comigo um dia antes do meu pai… Talvez Marcelo tenha alguma culpa… Mas não. Claro que não. Ninguém tem. Só deus tem culpa de tudo. Talvez eu. Meu pai sempre foi caladão. Tipo qualquer homem, né? Eu nunca quis ser homem. Só nasci com um pau entre as pernas. Ser homem sempre me pareceu uma obrigação. Um fardo, uma necessidade. Como se você tivesse que provar alguma coisa o tempo inteiro. Uma guerra ininterrupta pra saber quem é mais macho, mais másculo, mais forte. Por isso que tem um monte de cara matando a família e se suicidando. Eles não aguentam. Têm que dar conta de tudo. E se pedir ajuda é um fraco, um derrotado. O negócio é aguentar calado e tocar o barco.

A Duda vem aqui em casa direto. No dia do enterro ela até dormiu. Pediu pra deitar no quarto, mas eu queria ficar sozinho. Quando acordei, ela tava na porta, me espiando pela fresta. Achei bem bizarro, mas, ao mesmo tempo, meio fofo. Ela tava preocupada. É bom passar tempo com a Duda porque eu não preciso falar nada. Se quiser, falo, se não quiser, não falo. Não é igual às outras meninas que ficam tagarelando o tem-po-in-tei-ro. Por exemplo, eu gosto de colocar aqueles fones de ouvido gigantescos e não ligar o som. Deito na cama e fico olhando o teto, tentando tanger o silêncio. Bonito isso, né? É, eu sou um cara bem sensível. A Duda já me falou isso. Depois que ela foi embora eu tomei banho e parti pro psiquiatra. Não falei nada de novo. Ele não podia me obrigar. No final, mandou um trabalho de casa. Pediu pra eu escrever uma carta para o meu melhor amigo contando tudo que eu não conseguia falar nem para mim mesmo. Que idiota, se não falo nem pra mim, vou falar pra outro?

Quando saí mandei um zap pra Duda, mas ela não respondeu. Entrei no ônibus, cheguei a casa, lanchei, e nada daqueles dois tracinhos ficarem azuis. Liguei. A tia dela atendeu e disse que Duda tinha ido para o hospital com a mãe. Como assim? Ela teve que operar de emergência. Operar? Mas ela estava aqui boazinha hoje mesmo! Foi crise de apendicite, fica calmo, é uma cirurgia de rotina. Rotina? Rotina é o caralho. Tá todo mundo morrendo nessa porra e me deixando aqui sozinho. Pode visitar ela agora? Não, só amanhã a partir das três da tarde. Tum Tum Tum… esse foi o barulho patético do telefone quando a tia desligou e eu continuei com o aparelho apertado no meu ouvido.

CONTINUA…

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